Israel ocupada desde 14 maio de 1948
“Nós não temos direito a este país”
31/5/2010
Passar a régua e deixar tudo como está?
Existe afinal de contas um povo judeu? A diáspora é apenas um mito que visa justificar a direito à Palestina histórica? Com teses ponderadas, o historiador israelita Schlomo Sand coloca em dúvida muitas coisas óbvias para muitos judeus – seus colegas protestam indignados.
É esse ditado alemão que fascina Schlomo Sand: muitos inimigos, muita honra. “Às vezes eu gostaria de ter menos inimigos, mesmo se significasse um pouco menos de honra” , reflete o historiador israelita em sua sala na Universidade de Tel Aviv. “Mesmo assim, a coisa vale a pena” , afirma o acadêmico de 63 anos.
A coisa, isto é, o livro com o qual Sand desencadeou uma discussão amargurada em sua pátria israelita há dois anos: “A invenção do povo judeu” chama o trabalho que apareceu naquela época em hebraico e desde há algumas semanas, agora em alemão.
A tese defendida ali é polêmica, para muitos até inadmissível: não existe prova científica da expulsão do povo judeu da Terra Sagrada no ano 70 depois de Cristo, escreve Sand. Em conseqüência disto, ele afirma:
- os judeus não são, portanto, um povo que estaria espalhado pelo mundo ao longo de 2.000 anos
- as comunidades judaicas da região do mediterrâneo e Europa são antes de tudo produto de um trabalho missionário dos religiosos judeus
- judeus não são uma etnia, mas sim meramente uma comunidade religiosa, à qual teriam se juntado grupos de diferentes origens.
Em um país onde cada criancinha já sabe que os judeus procedentes da Alemanha e do Marrocos, Etiópia e Iraque têm a mesma herança cultural e genética, isso soa como alta traição.
“Eu perdi um monte de amigos”.
“Eu coloquei em dúvida o mito fundamental da sociedade judeo-israelita”, declara Sand a respeito da avalanche de indignação, que ele ocasionou quando publicou seu livro. A legitimação do Estado de Israel é derivada a partir do exílio onde os judeus teriam vivido ao longo de 20 séculos. “Este exílio nunca existiu, e com isso o sionismo se torna supérfluo”, diz Sand. “Como querem legitimar o ‘retorno ao lar’ dos judeus em sua antiga Pátria, se os judeus nunca deixaram essa região?” Suas pesquisas abalaram “os fundamentos da moderna Israel”, diz Sand convencido.
Mesmo que não se queira ir tão longe: o trabalho de Sand provocou enorme repercussão. Ao longo de 19 semanas, seu livro figurou na lista dos best-sellers da França. Entrementes, “A invenção” foi traduzida em seis línguas, outras 11 edições estrangeiras estão em preparação. Porém, ao orgulho de Sand mistura-se um pouco de melancolia: não apenas por receber milhares de cartas repletas de ódio, com diversas ameaças contra sua vida. “Eu perdi muitos amigos”, diz Sand.
Um motivo para a agitação: Sand aponta seus colegas historiadores como co-responsáveis pela construção de um mito. Sua reação foi respectivamente contundente. Sand deveria ter continuado a se ocupar com a história francesa, do que se meter nas especialidades de outras pessoas. A suposição de Sand que haveria uma espécie de conspiração entre os cientistas judeus em promover um clichê histórico, é “pura fantasia”, escreve Israel Bartal da Universidade de Jerusalém no jornal “Haaretz”.
Um Statement político
O que torna o trabalho de Sand problemático, são as derivações políticas que ele faz a partir de suas pesquisas históricas, escreve um famoso comentarista. Sand conclui que Israel é um país racista e anti-democrático, onde não-judeus são descriminados sistematicamente. Como podem denominar Israel uma democracia, se 2,5 milhões de palestinos dos territórios ocupados não possuem direito para dialogar? “Naturalmente isso é um statement político”, diz Sand, que vê a si próprio como um historiador consciente em boa companhia. “Historiadores produzem o canhão ideológico com o qual se definem comunidades, nossa profissão é política por natureza.”
Alguém ainda pode continuar a ignorar por que a historiografia atual do holocausto judeu ainda deva ser mantida com unhas e dentes? A verdade histórica em torno deste episódio deve ser ocultada, a versão atual dogmatizada, mesmo que isso se faça pela força da lei, em outras palavras, através da censura nua e crua.
E onde estão os inconformados jornalistas, eternos defensores da tão sagrada liberdade de expressão? Quando um ativista político é condenado a 13 anos de prisão na Alemanha , apenas por expressar sua opinião a respeito do suposto holocausto e suas vítimas, onde se encontram os hipócritas defensores dos direitos humanos? Calados, acuados e constrangidos pela pressão imposta da Nova Ordem mundial Sionista – NR.
Auxílio para sua tese, que o judaísmo é apenas uma religião, não uma etnia, ele recebe de diversos assim chamados Novos Historiadores, que se ocupam desde a década de oitenta do século passado em corrigir a historiografia oficial israelita. Tom Segev, um bastante famoso historiador israelita, elogiou o livro como bem fundamentado e relevante politicamente: “Quer disseminar a idéia que Israel deva ser um país para todos seus habitantes – ao contrário de sua identidade declarada como Estado ‘judeu e democrático’.”
O próprio Sand não acreditou que poderia lecionar na universidade e que provocaria um verdadeiro escândalo antes de receber as honras. Como filho de um sobrevivente do holocausto nascido em Linz, ele veio no ano de fundação do Estado israelita, na região costeira de Jaffa com predominância árabe, não distante de Tel-Aviv. Aos 16 anos ele deixou a escola, ingressou no exército e combateu na guerra dos seis dias, depois trabalhou em fábricas. Somente com 25 anos terminou o segundo grau, estudou história e foi para a França, onde pesquisou o nacionalismo francês. Em 1982 retornou para Israel e leciona desde então em Tel-Aviv.
Os judeus não são um povo, mas sim uma comunidade religiosa
O trabalho de Sand alicerça-se na pesquisa moderna sobre nacionalismo, como formulou o cientista político norte-americano: segundo ele, nações são “comunidades inventadas”. Para Sand, a idéia do nacionalismo judeu nasce simultaneamente com a identidade de outros povos europeus por volta de 1850. Ao contrário da Europa, onde a idéia do Estado nacional étnico empalidece, em Israel ela é ainda a estrutura fundamental do Estado.
Sand e seus seguidores defendem a posição que deve ser passada a régua na história. “Nós vemos o que surge daí, quando antigos discursos são desenterrados e pronunciados em alto e bom tom”, diz Sand em referência ao “retorno ao lar” dos judeus para a Palestina. Segundo ele, o Estado israelita deve continuar a existir, os palestinos expulsos ficam onde estão. “Mas o Estado israelita deve reconhecer que leva nas costas a responsabilidade pela catástrofe palestina”, diz Sand.
O verdadeiro holocausto: extermínio sistemático de milhões de palestinos
Aos poucos fica claro o propósito deste artigo da revista-conforme ao Sistema – Der Spiegel: depois de exterminar a população palestina ao longo de décadas e lhes roubar boa parte do território, a coisa deve ficar como está... Inacreditável!! – NR.
Com seu livro, Sand quer contribuir com um primeiro passo em direção à reconciliação, em direção à paz: “Eu não queria continuar a viver aqui, se ao menos não tivesse tentado modificar o discurso.” Ele tem exatamente em mente, como deveria ser o ensino ideal de história nas escolas israelitas, conta ele em sua sala, onde até o teto se acumulam clássicos de filmes em vídeo-cassete.
O professor apareceria diante dos alunos e proferiria o seguinte discurso: todos nós sabemos que os judeus não são um povo, mas sim uma comunidade religiosa. A Europa nos cuspiu para fora no decorrer da Segunda Guerra Mundial. Como nós não podíamos ir a lugar algum, nós usurpamos a terra de outras pessoas, sem perguntar. Por isso os árabes nos odeiam.
“Nós não somos um povo, nós não temos direito a estas terras. Se isso for ensinado nas escolas israelitas”, diz Sand, “haverá paz. E eu não preciso escrever mais qualquer livro.”
Os palestinos expulsos devem ficar onde estão, encurralados em sua própria pátria, mesmo que os israelitas não tenham "direito a estas terras". A velha política hipócrita do "bate e assopra" - NR
Der Spiegel, 30/05/2010.
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segunda-feira, 14 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
Origens do conflito Israelita-Palestino
Ben Gurion e as origens do conflito Israelita-Palestino
"A lembrança, vaga agora, remete-me à noite de 14 maio de 1948. Vejo-me caminhando pelas ruas do Bom Fim. Vejo fisionomias radiantes, ouço gritos de júbilo... O Estado de Israel acabava de ser proclamado. Eu não podia me dar conta do que aquilo exatamente significava, mas a emoção me invadia irresistivelmente. O Estado judeu era uma realidade.
Se para um garoto de onze anos a data revestiu-se de tal significado, imagine-se o que ela representou para os adultos, muitos deles emigrantes da Europa Oriental, vários sobreviventes do Holocausto. Imagine-se o que significou para as comunidades judaicas de todo o mundo. A sensação era de que um sonho enfim estava se realizando. Aliás, não era só sensação: era aquilo mesmo. Um sonho se realizava". (Moacyr Scliar) [1]
Como sociólogo aprendi que não é possível compreender um fenômeno, para além das aparências, se não apreender seu movimento interno desde as origens.[2] Como afirma Meron Benvesti, autor de A História Sepultada da Terra Santa desde 1948, ex-vice-prefeito de Jerusalém:
Para compreender verdadeiramente a herança palestina e israelense de ódio, é preciso voltar às experiências pioneiras dos primeiros colonos sionistas que tentaram assentar-se na sua terra ancestral, habitada por uma comunidade hostil, e a ira árabe que saudou essa intrusão de forasteiros. Esse trágico encontro está profundamente marcado na consciência de ambas as comunidades e define suas percepções. [3]
Até a I Guerra Mundial, a Palestina esteve sob controle do Império Otomano. É ainda no século XIX (1881-1900), que ocorre a primeira Aliah [4], a imigração judaica para as terras palestinas. O sionismo moderno, sob inspiração de Theodor Herzl, dava então seus primeiros passos encaminhando os primeiros chalutzim (pioneiros) para a Terra Santa. Estes enfrentavam as mais duras condições de vida. M. Michel Bar-Zohar, o biógrafo do fundador do Estado israelita, Ben Gurion, descreve a Palestina nestes anos:
Esta antiga pátria nada tem em comum com o Paraíso terrestre descrito pelos escritores bíblicos. As guerras, o abandono, a erosão, a indiferença de povos estranhos que se sucederam sem criar raízes na região, fizeram muitos estragos. Os vergéis e as margens de riso do Cântico dos Cânticos metamorfosearam-se em espaços áridos. Os pântanos, onde viceja o impaludismo, dominaram as férteis planícies costeiras e os ricos vales do interior. O sol implacável abrasava as montanhas da Judéia, transformadas em esqueletos de rochas desnudas. A Palestina tornou-se o ponto negro, o território mais desprezado do Império Otomano. [5]
É certo que os palestinos durante muito tempo foram majoritários naquela área. Mas já se encontrava uma minoria judaica dispersa pelo território palestino. Alguns deles descendiam de ancestrais que nunca deixaram a Terra Santa e que sobreviveram aos vários editos de expulsão. Outros eram originários de outras regiões do Império Otomano e do mundo mulçumano. “Formavam uma comunidade fatalista despida de iniciativa. Singelos e inocentes, aguardam com uma paciência oriental a chegada do Messias, o verdadeiro...”, escreve Bar-Zohar. [6]
Nos primeiros tempos da aliah, muitos judeus da diáspora nem mesmo aceitavam a idéia da possibilidade da supremacia judaica na Palestina. Os próprios financiadores da aventura do povoamento judaico na palestina eram tidos como loucos. Sir Moses Montifiori, um desses loucos, lançou, em 1839, o primeiro projeto de colonização. Foi por sua iniciativa que, em 1856, estabeleceu-se a primeira plantação agrícola de laranjas sob controle judaico em terras palestinas. Carl Neter fundou, em 1870, uma colônia agrícola em Mikve Israel. E o Barão Edmundo Rothschild, o mais famoso, comprou terras e criou colônias agrícolas, enviando seus instrutores para ajudar os primeiros pioneiros.
Não se imaginava que a humanidade pudesse vivenciar os horrores do Holocausto, mas os judeus ainda passavam pelo sofrimento milenar da perseguição, da discriminação e dos pogroms. A realidade cruel do Judeu Errante em busca da sua terra, da sua pátria, alimentou o sonho de muitos jovens chalutzim organizados em colônias coletivas, o Kibutz.
O movimento chalutziano, manifestado pela aliah em suas diversas etapas foi a espinha dorsal da colonização judaica. Para Ben Gurion, este movimento “eleva o homem, enriquece sua vida, descobre nele forças latentes; em suma, o chalutzianismo é a parcela superior do homem.” [7]
Tratava-se de acreditar e contar com suas próprias forças, ainda que pequenas. Ben Gurion enaltecia os chalutzim:
Os vintes rapazes e moças que há trinta anos fundaram nas margens do Jordão a primeira comuna, fizeram para a história judaica e universal, para o movimento trabalhador judeu e internacional mais do que toda a massa de socialistas e revolucionários judeus que se atrelaram ao carro revolucionário dos grandes povos e zombaram da obra “desprezível” e rara dos chalutzim em Eretz Israel. [8]
Desde o início, os chalutzim tiveram que enfrentar a resistência árabe. Estes, à época do Império Otomano, constituíam uma população de cerca de 500 mil. A população judaica, crescendo pouco a pouco com a chegada de diversas levas de imigrantes, atingiria, no ano de 1930, a casa dos 300 mil. A reação árabe se intensificou, e estes conseguiram que o governo britânico restringisse a imigração judaica à região – a Palestina passara para o domínio inglês após a I Guerra Mundial. Observe-se que à época o nazismo avançava na Europa.
Um fato ilustrativo do potencial conflituoso entre essas populações, ocupando e reivindicando o mesmo espaço, ocorreu na páscoa judaica de 1909, assim relatado por Bar-Zonhar:
O núcleo de Sejera está em festa. Os muros da sala principal estão decorados com armas e ferramentas agrícolas, símbolo da dupla finalidade dos pioneiros: trabalho e defesa. Mas, neste dia tudo se concentra nas canções e nas danças.
Inesperadamente, ressoa um grito. Junto à porta, um jovem ainda trêmulo. Com voz rouca, conta que ele e seus dois amigos que vinham de Haifa foram atacados por três árabes armados, com intenções de pilhagem. Após sangrenta reação, conseguiram escapar. Um dos árabes morreu. [9]
A reação não tardou. Rezava a tradição que os membros da tribo do morto deveriam, por sete dias, vingá-lo. E assim ocorreu. No oitavo dia da Páscoa, Israel Korngold, sentinela do núcleo, é morto e seu rifle roubado. “Neste dia eu entendi muitas coisas”, conta Ben Gurion. “Eu entendi que mais dias menos dias, teríamos a prova de força com os árabes. A partir desse momento em Sejera, compreendi que o conflito era inevitável. O que se passou em Sejera era uma brincadeira ante as dificuldades que nos esperavam. Devíamos nos preparar para enfrentá-las.” [10]
E, infelizmente, o Profeta Armado estava certo. As duas comunidades ainda se enfrentariam por várias oportunidades. Nestes confrontos prevalece a lei do mais forte. Ben Gurion compreendeu bem isto. No mesmo dia em que ele declarou a fundação do Estado de Israel, este foi atacado pelos exércitos da Jordânia, Egito, Síria, Iraque e Líbano. Foi sob a liderança de Ben Gurion que os judeus derrotaram-nos.
Desde então, vemos uma guerra que parece não ter fim. Seu fundamento reside numa questão aparentemente simples: a disputa de terra. Sob beneplácito da ONU, e com a simpatia mundial, horrorizada com o Holocausto que ceifou a vida de milhões de judeus, concedeu-se aos mesmos o direito de terem o seu território, a sua própria pátria. Mas, a mesma ONU estabeleceu um plano de partilha do território palestino, criando também o Estado da Palestina. Para os palestinos, esse plano ainda não saiu do papel.
Os árabes demonstraram então que não aceitariam o Estado Judeu – e manifestaram-no novamente na Guerra dos Seis Dias, em 1967. O Estado judeu, por seu turno, procurou se fortalecer e conseguiu um grande aliado: os Estados Unidos da América. A guerra fria, o fato da comunidade judaica neste país ser uma das maiores e mais importantes do mundo e a capacidade de Ben Gurion, em termos de política exterior, foram determinantes.
A expansão do Estado judaico procurava, como hoje, dar uma resposta ao problema da segurança, ou seja, à questão da própria sobrevivência do Estado. A colonização de terras palestinas insere-se neste contexto. Por outro lado, criou-se outro enorme problema para a paz: a questão dos refugiados. Ben Gurion percebeu bem este dilema e observou o quanto a situação dos refugiados era desesperadora. “Eles constituem um fator de complicações e perigos no desenvolvimento de nossas relações com os países vizinhos”, afirmou. [11]
São dois nacionalismo que se antagonizam: o judeu e o árabe. De um lado, a frustração da população árabe que vivia na palestina diante da implantação do Estado de Israel; uma população expulsa das suas terras e submetida à força do Estado judeu, sem possibilidades de estabelecer a sua pátria, o seu Estado autônomo. De outro, o Estado Judeu, sentindo-se com o direito milenar àquelas terras e sob ameaça constante dos seus vizinhos. De um lado, a necessidade de reconhecimento do Estado palestino; de outro, o direito à existência do Estado israelense. Em suma, uma disputa pelo mesmo espaço territorial entre dois povos, ambos reivindicando direitos históricos sob a área.
Na apresentação da biografia de Ben Gurion, visto por Maurício Tragtenberg como a “versão hebraica de Maquiavel e o “Príncipe” é substituído pelo “Velho Testamento”, ele escreveu:
“Dizia Napoleão ser a política, a forma moderna da tragédia. Por outro lado, a pureza dos princípios não só tolera como requer as violências e Israel não é a exceção”. [12]
Em nossos dias a violência se traduz na fúnebre dialética entre o medo e o terror, estabelecendo um círculo de mortes de parte a parte. As acusações mútuas não substituem a necessidade da paz. Israel não estará seguro enquanto houver um homem e uma mulher palestina dispostos a se explodirem pela causa da libertação; os palestinos não estarão seguros enquanto o Israel não superar o medo. O apoio da maioria da população israelense ao terrorismo de Estado, expressão da política de Sharon – a julgar pelas pesquisas divulgadas na imprensa – e, por outro lado, a simpatia com que conta os homens e mulheres bombas entre a população palestina, são os dois lados de uma tragédia que une, para o bem ou para o mal, estes povos. O conflito atual mostra que a obra de Ben Gurion ainda encontra-se inacabada.
1 - In: HERZL, Theodor. O Estado judeu. Rio de Janeiro, Garamond, 1998.
2 - As origens do povo judaico, para além da modernidade, remontam aos tempos bíblicos. Não cansarei o leitor: me aterei ao período mais recente. De qualquer forma, vale a pena recorrer ao textos do livro sagrado e ler, por exemplo, Êxodo.
3 - Citado in: Clovis Rossi. População transita entre estigmas de “bons” ou “cruéis”. Folha de S. Paulo, 07.04.02, p. A-24.
4 - Palavra hebraica que indica ascensão, subida, ou seja, viagem a Sion, com o fim de radicar-se definitivamente. Designa as várias etapas de imigração judaica para a Palestina.
5 - BEN-ZOHAR, M. Michel. Ben Gurion: O Profeta Armado. São Paulo, Editora Senzala, 1968, pp. 43-44. (Apresentação e tradução de Maurício Tragtenberg)
6 - Idem, p. 44
7 - BEN GURION, David. O despertar de um Estado. Editora Monte Scopus, 1957, p.150.
8 - Idem, p. 28
9 - BAR-ZOHAR, op. cit., p.52
10 - In Idem, p. 53
11 - BEN GURION, op. cit., p. 100
12 - A frase é de Maurício Tragtenberg, da aprensentação do livro Ben Gurion, O Profeta Armado, p. 07.
ANTONIO OZAÍ DA SILVA
"A lembrança, vaga agora, remete-me à noite de 14 maio de 1948. Vejo-me caminhando pelas ruas do Bom Fim. Vejo fisionomias radiantes, ouço gritos de júbilo... O Estado de Israel acabava de ser proclamado. Eu não podia me dar conta do que aquilo exatamente significava, mas a emoção me invadia irresistivelmente. O Estado judeu era uma realidade.
Se para um garoto de onze anos a data revestiu-se de tal significado, imagine-se o que ela representou para os adultos, muitos deles emigrantes da Europa Oriental, vários sobreviventes do Holocausto. Imagine-se o que significou para as comunidades judaicas de todo o mundo. A sensação era de que um sonho enfim estava se realizando. Aliás, não era só sensação: era aquilo mesmo. Um sonho se realizava". (Moacyr Scliar) [1]
Como sociólogo aprendi que não é possível compreender um fenômeno, para além das aparências, se não apreender seu movimento interno desde as origens.[2] Como afirma Meron Benvesti, autor de A História Sepultada da Terra Santa desde 1948, ex-vice-prefeito de Jerusalém:
Para compreender verdadeiramente a herança palestina e israelense de ódio, é preciso voltar às experiências pioneiras dos primeiros colonos sionistas que tentaram assentar-se na sua terra ancestral, habitada por uma comunidade hostil, e a ira árabe que saudou essa intrusão de forasteiros. Esse trágico encontro está profundamente marcado na consciência de ambas as comunidades e define suas percepções. [3]
Até a I Guerra Mundial, a Palestina esteve sob controle do Império Otomano. É ainda no século XIX (1881-1900), que ocorre a primeira Aliah [4], a imigração judaica para as terras palestinas. O sionismo moderno, sob inspiração de Theodor Herzl, dava então seus primeiros passos encaminhando os primeiros chalutzim (pioneiros) para a Terra Santa. Estes enfrentavam as mais duras condições de vida. M. Michel Bar-Zohar, o biógrafo do fundador do Estado israelita, Ben Gurion, descreve a Palestina nestes anos:
Esta antiga pátria nada tem em comum com o Paraíso terrestre descrito pelos escritores bíblicos. As guerras, o abandono, a erosão, a indiferença de povos estranhos que se sucederam sem criar raízes na região, fizeram muitos estragos. Os vergéis e as margens de riso do Cântico dos Cânticos metamorfosearam-se em espaços áridos. Os pântanos, onde viceja o impaludismo, dominaram as férteis planícies costeiras e os ricos vales do interior. O sol implacável abrasava as montanhas da Judéia, transformadas em esqueletos de rochas desnudas. A Palestina tornou-se o ponto negro, o território mais desprezado do Império Otomano. [5]
É certo que os palestinos durante muito tempo foram majoritários naquela área. Mas já se encontrava uma minoria judaica dispersa pelo território palestino. Alguns deles descendiam de ancestrais que nunca deixaram a Terra Santa e que sobreviveram aos vários editos de expulsão. Outros eram originários de outras regiões do Império Otomano e do mundo mulçumano. “Formavam uma comunidade fatalista despida de iniciativa. Singelos e inocentes, aguardam com uma paciência oriental a chegada do Messias, o verdadeiro...”, escreve Bar-Zohar. [6]
Nos primeiros tempos da aliah, muitos judeus da diáspora nem mesmo aceitavam a idéia da possibilidade da supremacia judaica na Palestina. Os próprios financiadores da aventura do povoamento judaico na palestina eram tidos como loucos. Sir Moses Montifiori, um desses loucos, lançou, em 1839, o primeiro projeto de colonização. Foi por sua iniciativa que, em 1856, estabeleceu-se a primeira plantação agrícola de laranjas sob controle judaico em terras palestinas. Carl Neter fundou, em 1870, uma colônia agrícola em Mikve Israel. E o Barão Edmundo Rothschild, o mais famoso, comprou terras e criou colônias agrícolas, enviando seus instrutores para ajudar os primeiros pioneiros.
Não se imaginava que a humanidade pudesse vivenciar os horrores do Holocausto, mas os judeus ainda passavam pelo sofrimento milenar da perseguição, da discriminação e dos pogroms. A realidade cruel do Judeu Errante em busca da sua terra, da sua pátria, alimentou o sonho de muitos jovens chalutzim organizados em colônias coletivas, o Kibutz.
O movimento chalutziano, manifestado pela aliah em suas diversas etapas foi a espinha dorsal da colonização judaica. Para Ben Gurion, este movimento “eleva o homem, enriquece sua vida, descobre nele forças latentes; em suma, o chalutzianismo é a parcela superior do homem.” [7]
Tratava-se de acreditar e contar com suas próprias forças, ainda que pequenas. Ben Gurion enaltecia os chalutzim:
Os vintes rapazes e moças que há trinta anos fundaram nas margens do Jordão a primeira comuna, fizeram para a história judaica e universal, para o movimento trabalhador judeu e internacional mais do que toda a massa de socialistas e revolucionários judeus que se atrelaram ao carro revolucionário dos grandes povos e zombaram da obra “desprezível” e rara dos chalutzim em Eretz Israel. [8]
Desde o início, os chalutzim tiveram que enfrentar a resistência árabe. Estes, à época do Império Otomano, constituíam uma população de cerca de 500 mil. A população judaica, crescendo pouco a pouco com a chegada de diversas levas de imigrantes, atingiria, no ano de 1930, a casa dos 300 mil. A reação árabe se intensificou, e estes conseguiram que o governo britânico restringisse a imigração judaica à região – a Palestina passara para o domínio inglês após a I Guerra Mundial. Observe-se que à época o nazismo avançava na Europa.
Um fato ilustrativo do potencial conflituoso entre essas populações, ocupando e reivindicando o mesmo espaço, ocorreu na páscoa judaica de 1909, assim relatado por Bar-Zonhar:
O núcleo de Sejera está em festa. Os muros da sala principal estão decorados com armas e ferramentas agrícolas, símbolo da dupla finalidade dos pioneiros: trabalho e defesa. Mas, neste dia tudo se concentra nas canções e nas danças.
Inesperadamente, ressoa um grito. Junto à porta, um jovem ainda trêmulo. Com voz rouca, conta que ele e seus dois amigos que vinham de Haifa foram atacados por três árabes armados, com intenções de pilhagem. Após sangrenta reação, conseguiram escapar. Um dos árabes morreu. [9]
A reação não tardou. Rezava a tradição que os membros da tribo do morto deveriam, por sete dias, vingá-lo. E assim ocorreu. No oitavo dia da Páscoa, Israel Korngold, sentinela do núcleo, é morto e seu rifle roubado. “Neste dia eu entendi muitas coisas”, conta Ben Gurion. “Eu entendi que mais dias menos dias, teríamos a prova de força com os árabes. A partir desse momento em Sejera, compreendi que o conflito era inevitável. O que se passou em Sejera era uma brincadeira ante as dificuldades que nos esperavam. Devíamos nos preparar para enfrentá-las.” [10]
E, infelizmente, o Profeta Armado estava certo. As duas comunidades ainda se enfrentariam por várias oportunidades. Nestes confrontos prevalece a lei do mais forte. Ben Gurion compreendeu bem isto. No mesmo dia em que ele declarou a fundação do Estado de Israel, este foi atacado pelos exércitos da Jordânia, Egito, Síria, Iraque e Líbano. Foi sob a liderança de Ben Gurion que os judeus derrotaram-nos.
Desde então, vemos uma guerra que parece não ter fim. Seu fundamento reside numa questão aparentemente simples: a disputa de terra. Sob beneplácito da ONU, e com a simpatia mundial, horrorizada com o Holocausto que ceifou a vida de milhões de judeus, concedeu-se aos mesmos o direito de terem o seu território, a sua própria pátria. Mas, a mesma ONU estabeleceu um plano de partilha do território palestino, criando também o Estado da Palestina. Para os palestinos, esse plano ainda não saiu do papel.
Os árabes demonstraram então que não aceitariam o Estado Judeu – e manifestaram-no novamente na Guerra dos Seis Dias, em 1967. O Estado judeu, por seu turno, procurou se fortalecer e conseguiu um grande aliado: os Estados Unidos da América. A guerra fria, o fato da comunidade judaica neste país ser uma das maiores e mais importantes do mundo e a capacidade de Ben Gurion, em termos de política exterior, foram determinantes.
A expansão do Estado judaico procurava, como hoje, dar uma resposta ao problema da segurança, ou seja, à questão da própria sobrevivência do Estado. A colonização de terras palestinas insere-se neste contexto. Por outro lado, criou-se outro enorme problema para a paz: a questão dos refugiados. Ben Gurion percebeu bem este dilema e observou o quanto a situação dos refugiados era desesperadora. “Eles constituem um fator de complicações e perigos no desenvolvimento de nossas relações com os países vizinhos”, afirmou. [11]
São dois nacionalismo que se antagonizam: o judeu e o árabe. De um lado, a frustração da população árabe que vivia na palestina diante da implantação do Estado de Israel; uma população expulsa das suas terras e submetida à força do Estado judeu, sem possibilidades de estabelecer a sua pátria, o seu Estado autônomo. De outro, o Estado Judeu, sentindo-se com o direito milenar àquelas terras e sob ameaça constante dos seus vizinhos. De um lado, a necessidade de reconhecimento do Estado palestino; de outro, o direito à existência do Estado israelense. Em suma, uma disputa pelo mesmo espaço territorial entre dois povos, ambos reivindicando direitos históricos sob a área.
Na apresentação da biografia de Ben Gurion, visto por Maurício Tragtenberg como a “versão hebraica de Maquiavel e o “Príncipe” é substituído pelo “Velho Testamento”, ele escreveu:
“Dizia Napoleão ser a política, a forma moderna da tragédia. Por outro lado, a pureza dos princípios não só tolera como requer as violências e Israel não é a exceção”. [12]
Em nossos dias a violência se traduz na fúnebre dialética entre o medo e o terror, estabelecendo um círculo de mortes de parte a parte. As acusações mútuas não substituem a necessidade da paz. Israel não estará seguro enquanto houver um homem e uma mulher palestina dispostos a se explodirem pela causa da libertação; os palestinos não estarão seguros enquanto o Israel não superar o medo. O apoio da maioria da população israelense ao terrorismo de Estado, expressão da política de Sharon – a julgar pelas pesquisas divulgadas na imprensa – e, por outro lado, a simpatia com que conta os homens e mulheres bombas entre a população palestina, são os dois lados de uma tragédia que une, para o bem ou para o mal, estes povos. O conflito atual mostra que a obra de Ben Gurion ainda encontra-se inacabada.
1 - In: HERZL, Theodor. O Estado judeu. Rio de Janeiro, Garamond, 1998.
2 - As origens do povo judaico, para além da modernidade, remontam aos tempos bíblicos. Não cansarei o leitor: me aterei ao período mais recente. De qualquer forma, vale a pena recorrer ao textos do livro sagrado e ler, por exemplo, Êxodo.
3 - Citado in: Clovis Rossi. População transita entre estigmas de “bons” ou “cruéis”. Folha de S. Paulo, 07.04.02, p. A-24.
4 - Palavra hebraica que indica ascensão, subida, ou seja, viagem a Sion, com o fim de radicar-se definitivamente. Designa as várias etapas de imigração judaica para a Palestina.
5 - BEN-ZOHAR, M. Michel. Ben Gurion: O Profeta Armado. São Paulo, Editora Senzala, 1968, pp. 43-44. (Apresentação e tradução de Maurício Tragtenberg)
6 - Idem, p. 44
7 - BEN GURION, David. O despertar de um Estado. Editora Monte Scopus, 1957, p.150.
8 - Idem, p. 28
9 - BAR-ZOHAR, op. cit., p.52
10 - In Idem, p. 53
11 - BEN GURION, op. cit., p. 100
12 - A frase é de Maurício Tragtenberg, da aprensentação do livro Ben Gurion, O Profeta Armado, p. 07.
ANTONIO OZAÍ DA SILVA
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